quarta-feira, 6 de julho de 2016

Minha Coleção de LP´s de Música Clássica.

         Salve Galera!!! Hoje, num esquema de postagem diferente, venho mostrar para vocês um pouco da minha coleção de LP´s. Discos estes, que recebi de presente de uma querida pessoa, a Vanessa Barbato, junto ao seu noivo Alex Castropelli. Devido a infelicidade do falecimento do pai de Alex, eu recebi a missão de cuidar dos discos, e fazer o uso necessário, satisfazendo assim, o seu desejo.

         Os discos são demais! Tem desde lindas interpretações de Pavarotti, Plácido Domingos, até música clássica tocada como popular - pelo disco de Altamiro Carrilho - e um lindo disco duplo com o "Messias" de Haendel e o "Oratório de Natal" de Bach. Tem alguns discos de arranjos, com maestros muito bons, tem execuções de coros, trechos de óperas, abertura das mesmas e por aí vai. Só coisa boa! 

       Separei alguns para vocês darem uma olhada e escutada. Quero compartilhar essa raridade e divulgar a beleza desse ritual que era ouvir um disco LP. Deixo aqui também o meu agradecimento ao casal que me cedeu essa coleção! Até a próxima!!

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Entrevista com Allan Grando. Um passeio sobre matemática, música e afinações!


              Aos 30 anos de idade, o pianista, tratador de piano, compositor e estudante de música Allan Grando, natural de São Paulo, nos conta qual a relação da matemática para o seu trabalho de afinador e também para a música em geral. Compositor de trilhas e peças para piano e orquestra, Allan me recebeu em sua casa, onde pude degustar um pouco do seu trabalho, além de bater um papo descontraído sobre este assunto que instiga a nossa curiosidade. A proposta da entrevista seria a de agregar informações ao meu trabalho de Iniciação Científica, que visa estudar a teoria diatônica recente, ou seja, uma nova forma de abordar o estudo de música elementar, partindo de uma visão matemática/geométrica.
                Allan estudou no Conservatório da Lapa, no Dramático Musical, hoje é aluno do último período de composição da FIAM-FAAM, além disso, foi vencedor do concurso Jovem Solistas na categoria Piano e atribui a matemática como peça fundamental no seu ofício de afinador e compositor. Vejamos a seguir o que ele me contou sobre essa astronômica relação.


1 – Há quanto tempo você toca piano e atua como afinador de instrumentos?
Comecei cantando com uns 5, 6 anos eu ouvia coisas na TV e começava a cantar, ouvia cantores, os Três Tenores nas olimpíadas e tal. Com 7 ou 8 anos eu comecei a tocar teclado e depois eu queria um piano de qualquer jeito, me encantei porque meu pai começou a me dar aquela coleção do Moreira Lima de 1997/98, que eram 41 CDs pela revista Caras. Eu comecei a ouvir e me perguntar: Como pode alguém tocar tão bem? Isso soar tão limpo? Que instrumento faz tanta coisa ao mesmo tempo? E comecei a juntar dinheiro. Vendi brinquedo, bicicleta, um anel e mais algumas coisas. Meu pai viu o meu esforço e inteirou o valor. Com 11 para 12 anos eu consegui comprar o meu primeiro piano, um Fritz Dobbert. A afinação veio depois porque a situação apertou, meu pai, como muita gente de classe média, quebra e levanta durante a vida, tipo umas 20 vezes durante a vida (risos), e com isso não podia pagar um afinador, né? Mas eu fui “meio maníaco” na minha adolescência pois eu ficava tocando muito e sem orientação também. Até que eu descobri uma chave de afinar piano embaixo de uma banqueta de uma professora, uma chave velha, não era profissional, daquelas que mordem a cravelha e eu disse “posso levar para casa pois eu quero afinar meu piano? ” E ela disse que tudo bem, acho que eu tinha uns 13 anos. Levei para casa e desafinei o meu piano inteiro, né? Estourei corda e insisti nisso. Comprei uma maquininha (afinador) porque não é fácil ajustar, pois o ouvido quer uma coisa e o temperamento precisa de outra, é necessário encolher os intervalos. Fui quebrando a cabeça até que eu consegui afinar, e com 15 anos eu afinava para fora já. Fiz anúncio em jornal e comecei a prestar serviço. Trabalhei em uma loja com o Rubens, que é meu mestre de mecânica de piano, ele não afina, mas me ensinou muito de mecânica.


2 – Então você começou a afinar sem orientação? Você foi por curiosidade, investigando e aprendendo os segredos?
Nenhuma, os segredos, por exemplo, de você passar um pouquinho e de girar a cravelha para afinar o piano, você não pode levantar a cravelha só com a chave, forçando para cima sem rodar, porque o que faz esticar a corda é girar mesmo, pois assim ela trava numa nova posição. Se você levanta, cria-se uma afinação ilusória, porque você deixa por um triz para voltar aonde estava ou próximo. O correto é selar a afinação, ou seja, você passa um pouquinho e puxa a cravelha para baixo, pois ao contrário de subir, você ainda está deixando uma resistência para cima, uma vontade de subir a corda, ela guarda alguma energia potencial de querer subir. Algum ou outro afinador me dizia, “olha você precisa fazer assim e assado”, mas muito raro. 


3 – Qual a média de instrumentos afinados por mês?
Olha, depende, o mercado balança bastante! A gente tem algumas épocas que são de maior oportunidade para ficar um pouco melhor financeiramente e até guardar. Tem semanas que afino todos os dias, às vezes até dois por dia, outras semanas nenhum ou um piano. Já tive fases de afinar piano direto, 2 ou 3 por dia, mas aí eu não estudava quase música né, isso era um problema. 


4 –Você pode nos dizer a importância dos intervalos da série harmônica para o processo de afinação de um piano? É comum o uso dessa técnica na afinação dos instrumentos?
 O mais comum é fazer a afinação partindo do Lá (220Hz) e é usual partir desse lá central. Além de ser a região central do piano, e ser boa de ouvir, você começa a distribuir o peso, porque quando você estica um piano, você está adicionando tensão à chapa, a tensão dentro de um piano é imensa! Um piano de concerto chega à 18 toneladas de tensão das cordas sobre a estrutura de ferro fundido! Então é comum começar pelo centro da tensão. Já ouvi dizer, de casos de pessoas que não sabem disso e começam a esticar de um lado para o outro e arrebentam a chapa no decorrer porque você cria uma desigualdade entre um lado sem nada e o outro com todo peso e de repente arrebenta. Pode acontecer. A chapa do piano moderno, de um over de cauda, é um “ x ” que precisa travar. Se você começa do centro para fora, você está favorecendo esse movimento, então o piano é feito para começar do meio mesmo. Aí eu vou para as quintas primeiro, só que com cuidado porque a quinta quer ficar mais aberta, a gente gosta da quinta mais aberta, talvez seja mais natural, além de ser a quinta que coincide com a série harmônica e a escala pitagórica, que é a relação de três para dois, onde você divide a corda em três e pega dois e parece que a gente quer essa mesmo. Mas se você for por essa, quando você acaba um ciclo grande, sei lá, de 12 quintas por exemplo, ou o piano inteiro, aí você vai parar lá nas alturas na última tecla, porque vai ficando muito aberto e a quinta quer ficar mais aberta ainda do que isso. Quando eu era mais novo já aconteceu de eu esquecer a máquina e me arriscava a ir de ouvido, eu fazia, mas já aconteceu da afinação ficar totalmente fora, alta e eu ter que ajustar tudo de novo. Então, talvez um ponto de equilíbrio para que a quinta não fique muito alta, a quarta seguinte é um ponto de referência para a quinta anterior. Você consegue balancear a região plagal ali do V – I, do Sol subindo para o Dó, com a região autêntica – emprestando os termos do contraponto – elas funcionam como um próprio espelho mesmo. No contraponto você faz um trecho nessa região da escala, exemplo: de Dó a Sol e um outro na região de Sol a Dó, então isso se torna uma medida, a medida de um é o espelho do outro e isso ajuda! A terça, ela aparece muito, por exemplo quando a gente faz décimas no piano (tocou ao instrumento uma série de décimas), assim como a sexta, elas incomodam muito quando desafinadas. Então, boas referências na afinação são as terças, as quartas, quintas e a oitava principalmente, pois ela é a coisa igual que é diferente né? Além de ser justa em qualquer lugar, na escala natural, no temperamento igual e na série harmônica. O uníssono é importante porque no piano, em algumas notas, nós temos três cordas e é preciso deixá-las iguais, pois são gêmeas! O Uníssono é ponto de partida, a oitava e as quintas vêm depois, então o processo de afinação segue a sequência da série harmônica e o que vai nos indicar se a quinta ficou muito aberta é a terça, que é o próximo harmônico da série. Portanto, é como se a afinação acompanhasse a série harmônica, mas claro que quanto maior o número, mais imprecisa a afinação fica, por exemplo, não se afina por sétimas. E aí voltamos aquela velha questão: a sétima é dissonância ou não? E dirão: “Ah! É consonância, pois ela está presente na música popular e no JAZZ, em tudo quanto é estilo”. Mas afine o instrumento por sétimas então e aí você vai ver se é consonância ou não! (risos)


5 – A gente pode concluir que se afinarmos um instrumento partindo do intervalo de quintas e do nosso ouvido, a gente vai cair no que Pitágoras mostrou para a gente. Portanto o ideal seria, ao afinar um instrumento sem um aparelho, favorecer uma quinta mais fechada?
 Sim, para caber no temperamento. Porque a oitava coincide em todas essas oitavas, né? A quinta não, ela muda em cada uma delas, na natural e na temperada. Existe também a escala Mesotônica, que era formada pelo intervalo de terça, ao invés das quintas, e que não deu certo.



6 – Essa técnica foi você quem desenvolveu e se adequa ao seu estilo ou foi alguém que te influenciou?
 Não, no início eu ouvi isso de outras pessoas sim. A loja que trabalhei, que tinha o Rubens como dono, logo já me falou sobre o intervalo de quinta ser usual na afinação. Mas é instintivo, a oitava eu já pensava como algo regulador, a quinta também, só que essa organização veio depois.




7 – Você como intérprete, estudioso e pesquisador, pode nos dizer como vê a matemática interligada à música?
Os primeiros números, se a gente for pensar lá no tetraktys grego, se você somar 1 + 2 + 3 + 4 até o dez, você tem todos os números, do 1 até o 4 a gente já tem muita coisa que pode ser associada à música, por exemplo, as primeiras formas que a gente tem, a forma binária o nome já diz, o que é o dois? O dois é o princípio da dualidade, que Lawlor cita em sua obra Geometria Sagrada, porque você tem uma coisa que se opõe a outra. O um está dividido em dois, uma ideia ela contém duas coisas divergentes e esse princípio em música se encontra no contraste, na variação, modulação, pergunta e resposta, antecedente e consequente e etc. O número dois está em tudo, permeia tudo. Nos processos de aumentação e diminuição, sempre usamos o dobro e metade como referência. O três como trindade, triângulo, primeiro plano formado e várias outras características, o três é uma matriz que gera coisas. Você parte de uma ideia, desenvolve e volta nela. Mas transformada, porque ela passou por um caos, por uma inquietude, uma antítese e voltou para uma outra tese, que é a síntese. O pensamento ternário é gerador, porque a partir de uma ideia, você a desenvolve e ela retorna de uma outra maneira e esse processo continua. O nosso pensamento passa pelo princípio da dúvida, da dualidade e chega no três que é um pouco mais, pois a conclusão não é mais a mesma do início. O 4 representa a quadratura, parece que a nossa vontade é agrupar as coisas de 2 em 2 ou 4 em 4, principalmente na música, 4 compassos, 8 compassos e etc. dá uma sensação de ciclo fechado, na mesma forma que o quadrado fecha, a quadratura dá uma sensação de início, meio e fim.


8 – Como foi esse processo de relacionar a matemática à música? Foi influência de alguém ou uma curiosidade individual?
Quando eu tinha uns 14, 15 anos, eu comecei a estudar umas Cirandas de Villa-Lobos, a partir das gravações do Moreira Lima que citei anteriormente, e eu ficava ouvindo aquilo e ali tem muitos acordes aumentados, sextas francesas e disposições que eu só fui saber o que era depois, mas isso instigou a minha curiosidade. Ao tocar algumas cirandas com a tampa do piano aberta, eu percebi que numa tétrade tocada na mão direita acompanhada por uma linha de baixo na mão esquerda, os martelinhos respeitavam uma disposição de um afundado, três não afundados, um afundado, três não afundados e outro afundado e eu ficava pensando, nossa é geométrica a coisa! E essa tensão resolvia-se em outro acorde também simétrico pelos martelinhos e eu ficava maravilhado com isso, porém, não se passava de uma impressão visual. Sabe quando você calcula que possa existir uma relação, mas você não vai adiante? Depois com a faculdade, conhecendo mais de harmonia e alguns estímulos que a gente teve lá, alguns professores que prezam por essas relações pitagóricas, harmonia das esferas e relações do nosso mundo aqui e as distancias dos astros e que trazem isso para a música.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Instrumentos Medievais

          È muito difícil encontrar artigos, textos ou até postagens em português que detalhem e mostrem os instrumentos medievais. São poucos os autores que se debruçam nesse assunto e que possam nos fornecer formas de escutar e identificar esses instrumentos. Hoje com o auxílio da internet - acredito que essa plataforma multimídia sirva para isso - podemos realizar uma simples postagem, em um humilde blog, onde desfrutemos da possibilidade de ver e ouvir estes instrumentos.
        Vamos nos situar! O período Medieval, ou a Idade Média, em música, foi de extrema importância para a evolução dessa arte. Tivemos aí o surgimento de escritas mais precisas, composições que priorizavam o registro e execução a modo que o compositor queria, além de claro, a incrível evolução dos instrumentos.
        A Igreja Católica foi a maior promotra de música - ferramenta usada para difundir a palavra de Deus pelo mundo. A Música profana ia se disseminando mais amplamente por meio dos menestréis e dos poetas ambulantes, os trovadores. A Idade Média assistiu à explosão da arte musical sob todas as formas, das mais humildes às mais gloriosas.
        Vamos agora nos situar um pouco à sonoridade e à imagem de alguns instrumentos medievais e espero que vocês façam as relações possíveis com os instrumentos modernos!



 - Charamela















-Flauta doce e Alaúde Medieval















-Viola da Gamba















- Rabeca
















- Dulcimer















- Saltério














- Harpa Medieval















- Corno de caça, feito de chifre de animal.


- Alboque, Também feito de um chifre mas com palheta simples.


 - Tamboril, Para ser tocado a uma mão enquanto a outro toca a flauta.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Mozart unindo nações pós 7 x 1. A universalização da música.

          Olá amigos! A postagem de hoje tem um intuito de compartilhar experiências com vocês, do que propor algum tipo de discussão ou conhecimento. Essa semana, mais precisamente nos dias 17 e 18 de Maio de 2016, tive o enorme prazer de participar de um evento incrível da música Coral. O Coral Vozes Paulistanas, o qual faço parte, executou a magnífica Missa da Coroação K. 317 de W. A. Mozart (1756 - 1791), contando com a Orquestra Jovem de São Caetano, Regência de Geraldo Olivieri e do coro alemão "Neuer Kammerchor", da cidade de Heindenheim.


        Na terça feira (17) realizamos um ensaio que, na verdade, tinha mais uma função de integrar os dois grupos. Foi incrível recebê-los ao som da musica "Boi Bumbá" e ver os rostos entusiasmados com nossas boas-vindas. Os diálogos em inglês, a interação em cima do palco e a disposição deles em fazer o melhor para nós, foram os pontos que mais me marcaram nesse dia. O coro é jovem, eles têm entre 18 e 25 anos. Adoram música popular e nos agraciaram apresentando duas peças que envolvem movimentos corporais e até cênicos.

        Voltando ao nosso programa oficial, dava para perceber que não era a "praia" deles este tipo de repertório, por isso impostavam e projetavam pouco as vozes, no entanto, nosso grupo tentava equilibrar esse quesito a cada parte da missa.

        A apresentação do dia 18, contou com 6 peças executadas por eles, apenas e, em seguida, nos unimos para a Missa da Coroação. É magnífico o poder de universalização da música, bastou o maestro delimitar o primeiro compasso e o grupo soar o primeiro acorde, que já me senti num coro único, uma enorme massa sonora, como se fôssemos todos a uma só voz. O latim não era problema para eles, apesar de algumas diferenças de dicção que foram instruções do regente deles.


        
parte do "Neuer Kammerchor"
Enfim, foi uma experiência incrível. Digo que todos, músicos e não músicos, devem adentrar um Coral e cantar, trocar informações e experiências, pois um país com tanta carência no ramo cultural, nos força a buscar outras saídas. Isso enriquece o ser humano, estimula o social e nos faz sentir mais próximos de uma definição real de humanidade. 


Página do nosso Coral, para mais vídeos, fotos e informações:

https://www.facebook.com/CoralVozesPaulistanasOficial/?fref=ts


Segue um trecho dessa inesquecível apresentação, espero que gostem!




terça-feira, 26 de abril de 2016

As Claves e sua evolução.


                 As Claves ( em latim, "chave") são símbolos que determinam as alturas fixas do pentagrama a partir do ponto em que aparecem. As mais usuais são as claves de Sol, Fá e de Dó, que, respectivamente, determinam sons acima do dó central, abaixo e o fixa
dentro pentagrama.


        

A utilidade das claves não há de ser discutida, sendo que usamos a de Sol para instrumentos agudos, a de Fá para os graves e a de Dó para os médios. Mas esses símbolos tão característicos para os músicos - e não-músicos - surgiram assim prontinhos ? Não! As claves passaram por uma grande transformação, mas para entende-la é necessário um prévio esclarecimento sobre as notas musicais.



Guido D'Arezzo (992 - 1050)
Os povos denominados Anglo-Saxônicos ( Antigos Germânicos) formados pela Inglaterra, Alemanha e Países baixos, usam uma escrita/fala diferente da nossa para notas musicais. Eles se referem à elas pelas letras dos Alfabetos - A; B; C; D; E...- e falam (solfejam) usando a dicção de suas letras mesmo. Graças a Guido D'Arezzo (992 - 1050), os países de origem Ibérica (Portugal, Espanha, Itália) receberam uma nomenclatura específica para cada nota musical - Dó, Ré, Mi ... - como uma forma de melhorar a prática de solfejo (esse assunto merecerá uma postagem onde vamos destrinchar esse tratado de D'Arezzo). Portanto a nossa clave de Sol surge como uma letra G, a de Fá como uma letra F e a de Dó como uma letra C. A partir de então, a evolução da escrita toma a frente transmutando as simples letras nos símbolos que muitos braços, pernas e qualquer outra parte do corpo, carregam uma tatuagem demonstrando o amor pela Música! Obrigado e até a próxima!



quinta-feira, 31 de março de 2016

A Sonata Ao Luar - Emocionalmente "Quasi una Fantasia"

     "Como poderia confessar a deficiência de um sentido que em mim deveria ser mais perfeito do que nos outros, de um sentido que outrora possuí em sua mais alta perfeição, uma perfeição que poucos músicos já tiveram?" (Testamento de Heiligenstadt, 1802)

         Com esse trecho do testamento de Beethoven que dou partida nessa postagem cheia de emoções. Nesse documento em que o compositor expõe toda a sua angustia pela surdez em evolução e seu sofrimento perante as convenções da sociedade, ele não imaginara que viveria mais 25 anos e escreveria obras tocadas até hoje. Como se sentiria um músico\compositor que começa a ter sinais de surdez aos 25 anos ? Como se sentiria um pintor que ficasse cego ? Como se sentiria qualquer artista que fosse barrado de "sentir", pelo maior canal, a sua arte? Não tenho resposta, mas Beethoven expressara tudo isso em sua música e hoje vamos escutar, apreciar e entender um pouco sobre a Sonata para Piano Op. 27 Nº2, mais conhecida como: SONATA AO LUAR.  

        Vamos começar pelos termos técnicos para aqueles não habituados. "Op." significa Opus ( Obra ). Serve como padrão de catálogo cronológico. Op. 1 - seria a primeira obra catalogada - Op. 2 a segunda e assim por diante. Lembrando que o catálogo é sempre feito por uma terceira pessoa e às vezes essa pessoa o auto-intitula, como é o caso das obras de Mozart que são catalogadas por Köechel e recebem a letra "K" antes do número:  K.545. O Compositor, por ventura, pode compor uma série de obras na sequência e isso acaba sendo embutido num Opus só e separado por números. Exemplo: Op.2 Nº 3, Significa que é a segunda obra catalogada e a terceira da série composta, por isso o numero 3.


        Voltando a nossa linda obra, ela foi composta em 1801, dedicada a aristocrata Giulietta Guicciardi. Beethoven lecionava piano a donzela e ela conquista seu coração, porém ele se vê distante de um possível casamento pois a família da moça preza por homens influentes e não músicos pobres. Por fim, Beethoven sofre por amor e sofre pela patologia que o ataca. O título "Ao Luar" fora dado após a sua morte, por algum crítico que disse ter remetido a imagem de um lago refletindo a luz da lua ao escutar a sonata, e com isso ela ganha o apelido.
(Giulietta Guicciardi)


        Para falar um pouco da forma da peça, temos uma sonata em 3 movimentos muito originais. O primeiro movimento lento, que é raro em uma sonata, retrata todo o sentimento do compositor e carrega o peso da fama desta obra, o que muitas vezes embaça o seu significado. No seu segundo movimento, temos uma atmosfera completamente diferente, mais vivo e brilhante, e alguns autores sugerem que ele expressa a personalidade de Giullieta. O terceiro movimento é arrebatador! Construido na forma sonata, ele expande as tercinas do primeiro movimento de tal forma como o coração de Beethoven estava sendo rasgado naquele momento de sua vida.



       É importante analisar as obras desse período de transição, e do Romantismo, com um alto grau de individualidade. É necessário retirar da vida, e influências, do compositor qualquer vestígio que nos leve a entender o porquê de tal novidade ou mudança. Beethoven certamente é o maior exemplo de turbilhão de sentimentos implodidos na música. Boa Escuta!

sábado, 12 de março de 2016

As Quatro Estações de Vivaldi - a eterna paisagem sonora.

Antonio Vivaldi (1678 - 1741)

      Se fossemos fazer um apanhado histórico-biográfico dessa figura da música Barroca, já teriamos conteúdo suficiente para um post bem recheado e curioso, porém, o foco hoje será a série de concertos "As Quatro Estações"
  



                O QUE SÃO "AS QUATRO ESTAÇÕES" ?


       Sinfonias? Òperas? Danças? Não. São um conjunto de concertos para Violino e Orquestra, quatro na verdade, que foram nomeadas de acordo com as estações do ano : Primavera, Verão, Outono e Inverno. São escritas em 3 movimentos cada uma, típico do gênero Concerto, e vem acompanhadas de um programa. Sim, uma música programática já em 1725! Vamos nos aprofundar isso!


      COMO ASSIM PODE-SE DIZER EM MÚSICA PROGRAMÁTICA ?


      Para quem tem dúvidas, música programática é aquele que segue um programa extra-musical, seja ele um quadro, um poema, uma história ou algo que entrelace com a música. Esse tipo de composição foi difundida no final do Classicismo, Século XIX, porém já encontramos indícios aqui com Vivaldi. As partituras do primeiro violino são acompanhadas de sonetos, cujo escritor se desconhece, mas existem especulações de ser o próprio Vivaldi. Os versos ajudam a criar uma imagem da composição em nossas mentes e é perceptível quando o violino solista tende a imitar o canto dos pássaros ou a vinda de uma tempestade. A seguir está o oringinal e a tradução dos versos do primeiro concerto: A Primavera.


Soneto

La Primavera
A Primavera
Giunt’è la Primavera e festosetti
La salutan gl’augei con lieto canto,
E i fonti allo spirar de’Zeffiretti
Con dolce mormorio scorrono intanto:
Chegada é a Primavera e festejando
A saúdam os pássaros com alegre canto,
E as fontes ao expirar dos Zéfiros (*)
Com doce murmúrio correm entanto:


Vengon’ coprendo l’aer di nero amanto
E lampi, e tuoni ad annuntiarla eletti
Indi tacendo questi, gl’augelletti;
Tornan’ di nuovo al lor canoro incanto:
Vem [um temporal] cobrindo o ar com negro manto
E relâmpagos e trovões eleitos a anunciá-la
Logo que eles se calam, os passarinhos
Tornam de novo ao sonoro encanto.


E quindi sul fiorito ameno prato
Al caro mormorio di fronde e piante
Dorme’l caprar col fido can’ à lato.
Então sobre o florido e ameno prado,
Ao caro murmúrio das folhas e plantas
Dorme o pastor com fiel cão ao lado.


Di pastoral zampogna al suon festante
Danzan ninfe e pastor nel tetto amato
Di primavera all’apparir brillante.
Da pastoral gaita de foles ao som festejante,
Dançam ninfas e pastores sob o abrigo amado
Da primavera surgindo brilhante.



(*) Zéfiro, na mitologia grega, é o vento do oeste. É o mais suave dos ventos e é considerado o “mensageiro da primavera”. Zeffiretti, no italiano, é o plural e diminutivo de Zéfiro, algo como Zefirinhos… ou seja, a mais leve das brisas.


       Além disso, As Quatro Estações foram escritas para serem tocadas durante a exposição de 4 quadros que retratam a natureza dessas épocas do ano. Esses quadros encontram-se, hoje em dia, em posse de uma família, sendo que um deles fora perdido. (Impossível encontrar fotografias na internet)
       Tudo isso coloca esse conjunto de concertos na categoria de música Programática.


         

SOBRE A FAMA DOS CONCERTOS.


       A Primavera foi sucesso imediato, sendo tocada pela corte francesa mesmo após a morte de Vivaldi e ainda hoje, "As Quatro Estações'', permanece como uma das obras mais gravadas e reproduzidas. Com certeza vocês ja ouviram trechos em casamentos, comerciais, programas de TV e etc. Só nos resta contemplar essa obra de arte!  Até a próxima!
    













 CRÉDITOS DA TRADUÇÃO DO SONETO: BLOG EUTERPE